Os mitos do Detox

As dietas e fórmulas detox proliferam a olhos vistos como estratégias de purificar o corpo da porcaria que nos envenena todos os dias, ou até para perder aqueles quilos a mais que nos apoquentam. Janeiro é sempre boa altura para uma limpeza geral depois dos estragos da época festiva, e para começar limpinho um novo ano. Mas será que existe algum suporte a estas estratégias que passam invariavelmente pela adição de alimentos ou fórmulas miraculosas, e na maioria dos casos restrição calórica severa?


Existem várias estratégias detox que podem passar por jejum total ou parcial, alimentos funcionais, como os coentros ou Chlorella por exemplo, vitaminas e minerais, laxantes, diuréticos, ou fórmulas com alegado efeito purificante. São populares entre a vertente mais “naturalista” da nutrição para atenuar o impacto da exposição ambiental a toxinas, ou para tratar maleitas como distúrbios gastrointestinais, doenças autoimunes, inflamação, fadiga crónica, e até perda de peso. É reconhecido que estamos expostos a uma variedade de lixo nos alimentos que comemos, no ar que respiramos, na água que bebemos, nos cosméticos que aplicamos. A ideia de que podemos purificar o corpo através da nutrição é romântica. Uma espécie de penitência para espiar os pecados da vida moderna.


Os pouquíssimos estudos efectuados, se é que lhes podemos sequer chamar estudos, padecem de problemas conceptuais de base. São em modelos animais, com graus de exposição absurdamente elevados, e os raros em Humanos não são randomizados e com um grupo controlo que permita atestar o efeito do tratamento. A tendência natural do corpo é curar e detoxificar. A probabilidade de eu ficar melhor é superior à probabilidade de piorar, simplesmente porque o meu corpo tem mecanismos próprios de “limpeza” e um sistema imunitário fantástico que resulta de milénios de evolução. Se eu reduzo a exposição à toxina, a tendência será a sua eliminação do organismo. E sem querer ferir susceptibilidades, alguém dá grande crédito a estudos levados a cabo pela Igreja da Cientologia para tratar os bombeiros após o atentado ao World Trade Center? Vá lá… É este o tipo de evidência com que estamos a lidar.


É verdade que existem estudos que sugerem um efeito positivo de determinados alimentos na eliminação de toxinas, metais pesados, e até de níveis tóxicos de elementos essenciais como o ferro. É o caso da erva-trigo, por exemplo. Os coentros parecem reduzir a acumulação de cádmio no fígado em 30%. Mas eu não sou uma truta. E a de chumbo em 22% nos ossos se fossemos ratos expostos a quantidades absurdas deste metal pesado. Nestes também a Chlorella parece reduzir substancialmente a acumulação de mercúrio e chumbo, quando a alga representa 10% da dieta. Muita Chlorella tínhamos de comer… É verdade que a Chlorella parece reduzir a carga de metais pesados em águas residuais. Mas isto é motivo para esperar um efeito semelhante no organismo? Ensaios clínicos em Humanos são necessários. Estamos em terreno cinzento e ir mais longe é pura especulação. Certamente que mal não fará incluir estes alimentos na dieta, mas detoxificar não será um benefício deles. Tenho um fígado e dois rins para isso, obrigado.


Sabe-se que existem compostos em algumas plantas que estimulam o nosso sistema de detoxificação natural, por activação do factor de transcrição nrf2. É o caso dos sulforafanos das Brássicas por exemplo, entre muitos outros fitoquímicos. No entanto, entenda-se que o nosso corpo reage a estes compostos como as toxinas que são. Produzidas pelas plantas para afastar os predadores herbívoros. Sabem mal que se farta. A toxina estimula os mecanismos endógenos de detoxificação no sentido de promover a sua eliminação, e de outras toxinas por arrasto. O antídoto é uma pequena dose do veneno por assim dizer.

No que toca à perda de peso, mais uma vez o grau de evidência é do tipo homeopático. Óbvio que qualquer estratégia que passe por restrição calórica severa vai levar a perda de peso. Não são toxinas… é gordura mesmo! E não… Os efeitos secundários descritos, como cansaço, dores de cabeça, náuseas, insónia, ou ansiedade não são consequência das impurezas a deixar corpo como o diabo após exorcismo. É mesmo o deficit energético, acumulação ectópica de xenobióticos lipossolúveis em órgãos como o cérebro, e a sobrecarga hepática que a libertação das toxinas presentes no tecido adiposo provoca à medida que vamos perdendo peso. Os processos de detoxificação são dependentes de energia (ATP). Ora, em restrição calórica não se espera que o fígado seja particularmente eficiente certo?


Mas é claro que se vai perder algum peso quando se adere a um regime deste tipo, severamente hipocalórico e deficitário em proteína. Mas do que se trata essa perda de peso? Uns 80-90% água, e o resto um misto de gordura e tecido muscular. Qualquer dieta hipocalórica, e cheia de legumes e frutas do bem, tem um efeito diurético devido à redução da exposição à insulina, e ao baixo teor de sódio e elevado de potássio. Mas não é gordura. Não são toxinas. É água mesmo. E fazer mais xixi não significa depuração, até porque a grande maioria das toxinas bioacumuláveis são lipofílicas. Apenas a sua metabolização hepática prévia permite a eliminação através da urina e bilis.


Não existe evidência na literatura científica de que as dietas detox possam ter um benefício acrescido na eliminação da carga tóxica a que estamos expostos. Na verdade, até podemos encontrar no bom-senso alguns pontos contra estas estratégias quando requerem processos muito restritivos. Mas livrar o corpo do mal passa invariavelmente por sacrifício, fundamentado essencialmente em crença e muito pouco em ciência. Mal não fará certamente limitar a exposição, mas não se acredite que uma penitência nutricional nos vai purificar o corpo dos males da vida Moderna. Lamento.


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