Fitness Mitológico

Atualmente, muitas metodologias de Fitness parecem fazer sentido. Mas, talvez tanta diversidade – tantas realidades distintas para a mesma observação – seja  paradoxal. Assim, também aqui (além de na física) teremos de recorrer a um realismo modelo-dependente. Como descrito por Stephen Hawking, este modelo é baseado na ideia de que os nossos cérebros interpretam a entrada de informação, por parte dos nossos órgãos sensoriais, construindo um modelo do mundo. E a este modelo ser-lhe-á atribuída a qualidade de realidade, basta que explique com algum sucesso os eventos observados. Segundo esta teoria, poderão haver dois modelos que possam predizer os eventos observáveis de forma igualmente precisa. Nenhum deles é mais real que o outro, ambos são válidos, e seremos livres de usar o modelo que melhor nos convier.  Talvez seja este “fenómeno cerebral” que está na origem de tanta diversidade de métodos para melhorar a saúde dos utentes de ginásios e Health Clubs por todo o mundo (Musculação, Pilates, Alongamento, Instabilidade, Crossfit®, Zumba®, BodyStep®, BodyPump®, e a lista continua infindavelmente...).


Em suma, o cérebro Humano procura modelos que expliquem o mundo. E, sobre esta temática, já a Filosofia e a Ciência se debruçaram. Segundo Hawking, em O Grande Desígnio (2010), «O realismo modelo-dependente aplica-se não só aos modelos científicos mas também aos modelos mentais conscientes e subconscientes que todos nós criamos de forma a interpretar e entender o mundo de todos os dias. Não há modo algum de retirar o observador – nós – da nossa percepção do mundo». Mas, veja-se que, apesar de isto ser um dado científico, foi durante muito tempo uma ideia filosófica - pelos vistos verdadeira: Espinosa, em Ética (1665), afirmou que o modo como o vulgar ser-humano vê o mundo «não passa de modos do imaginar e não indica a natureza das coisas, mas apenas a constituição da sua própria imaginação»; o grande romancista Albert Camus, em O Míto de Sísifo (1942), de forma semelhante afirmou que «todo o pensamento é antropomórfico»; e Krishnamurti, numa palestra em San Diego (1970), concluiu de semelhante forma ao dizer que «não vemos as coisas como são, mas sim como somos».


Unânimes, a Filosofia e a Ciência, em declarar que filtramos o que observamos e descrevemos o mundo com base num modelo criado nas malhas das nossas crenças. Criamos mitos! Por exemplo, o das Centopeias. Se não, ora responda:


Quantas pernas tem uma Centopeia?


Já foram descobertas cerca de 3000 espécies de centopeias. Todas possuem entre 30 e 382 pernas. Contudo, nunca foi descoberta uma única que tivesse 100 pernas. Na verdade, a Centopeia é um animal que pertence à classe dos Quilópodes – em grego significa 1000 pernas (mais erróneo ainda!). Mas, será mero acaso nunca terem encontrado um Quilópode de 100 pernas? Claro que não, é somente ignorância – sabedoria popular, que basicamente é o mesmo. Os Quilópodes possuem sempre 2 pares de pernas por cada segmento corporal e possuem sempre uma quantidade ímpar de segmentos (entre os 15 e 191 segmentos corporais). Logo, nunca poderiam ter 100 pernas, pois teriam de possuir 50 segmentos corporais - e, por se tratar de um número par, não é possível. Quanto muito teriam 49 segmentos (correspondente a 98 pernas) ou 51 segmentos (correspondente a 102 pernas). Mas 100... não! e omito da Centopeia diz muito acerca da forma como os mitos são criados: por facilitismo comunicativo, uma espécie de “terrorismo” subliminar da linguística (uma mera conveniência).


Esta visão mítica da realidade também abarca o nosso Fitness, e cada vez mais, pois a quantidade de metodologias, protocolos e gurus crescem como cogumelos (venenosos), como uma trepadeira, outrora deslumbrante, mas que agora ameaça ruir a parede onde se encontra. E assim vai o Fitness, a escolher "certos" modelos explicativos, que alguns até explicam com algum sucesso os eventos observados, mas tantas vezes sem conhecimento do Corpo e da qualidade da Resistência. O problema é que esta forma de modelar o realismo da motricidade, limitada à partida pela carência de conhecimento, deu à luz uma espécie de Fitness Mitológico. Pois, reparem como todos os métodos e modalidades “resultam” (dito por quem os leciona e suportado por quem os pratica). Ou seja, cada um com o seu modelo, cada um com a sua realidade modelo-dependente, cada um com o seu Quilópode. Agora, o problema é que muitos estarão com a sua Centopeia de 100 pernas (numa mentira, portanto).


Entretanto, no meio de tão vasta variedade metodológica e desta (aparente) liberdade de escolha, o problema surge quando o conhecimento é limitado, quando não temos sabedoria suficiente para interpretar o que observamos. Ignoram-se a Ciência e a Filosofia, minora-se a evidência e o pensamento, propagam-se os mitos e, como escreveu o aclamado cientista e pensador cético, Carl Sagan, ficamos «com os nossos cristais fechados na mão e consultando nervosamente os nossos horóscopos, com as nossas faculdades críticas reduzidas, incapazes de distinguir entre o que nos agrada e o que é verdadeiro, regressamos, quase sem dar por isso, à superstição e à ignorância”» (Um Mundo Infestado de Demónios, 1997).


Bem, mas este artigo já vai longo, e muitos dos que me criticam por eu ser crítico (o que é um paradoxo autêntico e inútil) já devem ter abandonado o artigo, por isso, vou direito ao assunto final: somos enganados e deixamo-nos enganar.


Caro leitor, leia várias vezes e observe bem a sua reação à afirmação seguinte: ESTA FRASE É FALSA. Repare como se trata de um paradoxo: se a frase for verdadeira, então confirma-se, é falsa; se for efetivamente falsa, como descrito na afirmação, então será verdadeira. A frase anula-se, a si mesma, sempre! Pense o leitor o que quiser acerca da veracidade da afirmação acima, e estará sempre equivocado! Este tipo de afirmação engana-nos redondamente e inevitavelmente. Mas, as seguintes afirmações só nos enganam se nós deixarmos ou não estivermos informados:

  • “O alongamento reduz a incidência de lesões.”

  • “A libertação miofascial reduz a tensão na fáscia e é uma boa preparação para o treino.”

  • “O Pilates é o método mais eficaz no tratamento da instabilidade e dor da coluna.”

  • “Os exercícios com instabilidade solicitam mais o core.”

  • “Os movimentos integrados são mais funcionais.”

  • "O Leg Extension prejudica o joelho e não é funcional."

  • “Os exercício em plataformas instáveis são os melhores para melhorar o equilíbrio."

Estas afirmações não constituem paradoxo algum, serão sempre verdadeiras se eu acreditar no guru que as proferiu, sempre falsas se eu as estudar de facto. Com elas, criaram-se mitos enormes! Alguns já tive oportunidade de escrutinar em artigos, com recurso às evidências e ao pensamento, outros oralmente nas preleções e formações profissionais que ministro. E apresento sempre alternativas, lógicas (mais lógicas ainda por comportarem menor risco e colocarem o cliente no centro do processo). De qualquer forma, cá vão os factos:

  • O alongamento NÃO REDUZ a incidência de lesões [1].

  • A libertação miofascial NÃO REDUZ a tensão na fáscia, porque para a deformar 1% são precisos mais de 500 Kg de força, e NÃO É uma boa preparação para o treino [2].

  • O Pilates NÃO É o método mais eficaz no tratamento da instabilidade e dor da coluna [3].

  • Os exercícios em instabilidade NÃO SOLICITAM mais o core do que o mesmos exercícios em estabilidade [4].

  • Os movimentos integrados PODEM NÃO SER funcionais [5].

  • O Leg Extension NÃO PREJUDICA o joelho e até PODE SER funcional [6].

  • Os exercícios em plataformas instáveis NÃO SÃO os melhores na melhoria do equilíbrio [7]. 

Mas, note-se, não exponho a ignorância de quem não sabe, mas sim a de quem não quer saber. Como afirmou o grande Sócrates (não o político, mas o filósofo), ignorante não é aquele que não sabe, é aquele que ignora. Assim, deixo o meu estimado leitor com uma reflexão:


A extensão da sua ajuda ao cliente é proporcional ao seu conhecimento, e a sua inutilidade é um produto direto da sua ignorância. Deste modo, o seu potencial lesivo é tão grande quanto a sua falta de humildade. (Estude, sempre)


© João C. Moscão, 2019 - direitos de autor protegidos.


Referências:

[1] Lauersen, 2013; Behm, 2016.

[2] Chaudhry, 2008; Monteiro, 2017.

[3] Patti, 2015; Yamato, 2015.

[4] Martuscello, 2013.

[5] Carpinelli, 2017; Brearley, 2019.

[6] Fleming, 2005; Jewiss, 2017.

[7] Behm, 2015; Wirth, 2016.


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