Corrida e Osteoartrose

Atualizado: 14 de mai.

Embora não existam dados completos acerca da prática de corrida, é um facto aceite que a mesma aumentou nos últimos anos por todo o mundo. Esta ideia é fácil de perceber pelo aumento da oferta anual de eventos de corrida de estrada ou Trail e pela adesão popular crescente (os chamados atletas “recreativos”, federados ou não) que chegam mesmo a esgotar o número disponível de inscrições naquelas que são as provas mais mediáticas (1). Ou seja, a prática de corrida e a participação em eventos já não é hoje restrita a indivíduos de elite/profissionais.


Tal como a prática de exercício físico em geral, são também indiscutíveis os benefícios para a saúde decorrentes da corrida (2). Porém, esta tem particularidades biomecânicas que convém mencionar: em cada apoio no solo, as forças reativas chegam a atingir valores de 3 vezes o peso corporal do sujeito. Isto durante milhares de repetições numa única sessão! Por isso, quando comparada a outras atividades, devido ao stress mecânico aumentado a que o praticante está sujeito, a corrida merece especiais considerações principalmente se o nosso foco são as articulações que suportam a maior carga: coxo-femoral, patelo-femoral, tíbio-femoral e tíbio-társica. Torna-se então inevitável a seguinte pergunta: será a prática de corrida segura e saudável para estas articulações em particular?

É por esta lógica que tanto profissionais do Exercício físico, Fisioterapeutas e também o senso comum têm associado a corrida a doenças articulares degenerativas como a osteoartrose.


O que é a osteoartrose?


A osteoartrose (OA) é caracterizada pela degeneração da cartilagem articular (também conhecida por “cartilagem hialina"), cuja função passa pela absorção de forças e diminuição da fricção entre superfícies ósseas da articulação. O mecanismo subjacente à patologia deve-se à falha nos processos de reparação, diminuição no conteúdo de colagénio e proteoglicanos (aglomerados proteicos com capacidade de captar água), alterações ósseas sub-condrais e nos tecidos moles, tais como a inflamação da membrana interna da cápsula articular (inflamação sinovial), laxidão ligamentar, disfunção proprioceptiva e fraqueza muscular (3, 4). É unanimemente considerada a doença reumática mais comum na população adulta e responsável pelo abandono precoce das atividades profissionais por invalidez devido à elevada incapacidade funcional que impede os doentes de executarem tarefas simples do dia a dia. Por isso, também a qualidade de vida destas pessoas é afetada.

Sabe-se que o excesso de forças articulares repetidas e/ou focalizadas numa só zona da superfície cartilagínea articular conduz a estas alterações descritas acima. Estudos realizados em determinadas ocupações profissionais sugerem que estes indivíduos quando sujeitos a forças articulares crónicas de uma magnitude superior ao tolerável estão sujeitos a uma maior prevalência de OA (5). Posto isto, e à luz dos aspetos biomecânicos da corrida mencionados acima, não são de espantar as reservas de alguns profissionais quanto ao risco/benefício músculo-articular decorrente da prática de corrida.


O que nos diz a literatura?


Uma revisão sistemática com meta-análise (6) procurou qual a prevalência de OA no joelho em praticantes de corrida. Os autores foram incapazes de estabelecer uma relação entre a prática de corrida e a prevalência de OA, nem de oferecer quaisquer recomendações. Como os mesmos indicaram, os estudos selecionados apresentavam uma grande variedade de protocolos e conclusões. Além disso, por se tratar de estudos observacionais (a maioria retrospetivos), levou a que os autores os classificassem mesmo com um grau de evidência de baixa a muito baixa, dado o elevado potencial de enviesamento (de seleção das amostras e de memória na aplicação de questionários). Alguns nem excluíam sujeitos com lesões prévias à data do início do acompanhamento dos estudos. Dado que a severidade da OA pode acentuar-se nestes casos, tal impossibilita que se faça associação sem confundimento entre a corrida em si e a OA.

Entretanto, Alentorn-Geli et al, 2017 (7), também numa revisão sistemática com meta-análise envolvendo 114829 sujeitos, fez pela primeira vez a comparação entre elites, recreativos e sedentários. A associação entre OA (joelho e anca) e corrida foi significativamente inferior nos praticantes recreativos. Dado estes resultados e tratando-se de uma revisão sistemática será isto representativo do fim do debate e o assunto fica arrumado podendo a prescrição de corrida ser feita em total segurança a quem se propõe a praticar de modo “recreativo»? Podemos confiar cegamente nas conclusões e aplicá-las sem escrutínio na nossa realidade prática? Não creio! Primeiro, porque são os próprios autores uma vez mais a alertar para o risco de alguns enviesamentos nas seleções das amostras e na atenção dada aos desfechos de um grupo (elites) em prol de outros. Segundo, não foi possível tirar conclusões quanto à influência de algumas variáveis (idade, género, IMC, ocupação laboral e respetiva carga, lesões prévias) na prevalência de OA e que podem resultar em confundimento de resultados nos estudos incluídos. Terceiro, e este é um dos pontos que penso merecer grande destaque: quem são estes “atletas recreativos”?! Segundo a revisão mencionada, o critério foi estabelecido pelos próprios autores e classificava de “atletas recreativos” todos aqueles que tinham menos de 15 anos de prática de corrida, sendo que todos os que ultrapassassem esse tempo eram considerados como “elites/profissionais”. Compreende-se o critério dos autores ao considerarem o tempo de exposição à prática de corrida como fator potenciador de OA. Mas talvez seja pertinente estabelecerem-se outros critérios quantitativos (kms semanais ou mensais percorridos, tempo semanal de treino, velocidade e/ou intensidade, frequência semanal, etc.) na distinção inter-grupos (recreativos vs elites) e também intra-grupo. Os sujeitos que compunham este grupo de “recreativos” iam desde praticantes que percorriam 10 a 20 km semanais de corrida e algumas caminhadas inclusive, até outros que poderiam chegar perto da centena de kms semanais. Ou seja, muito provavelmente estamos a incluir neste grupo sujeitos com objetivos competitivos e com ocupações laborais sem ser o atletismo profissional! Muito provavelmente estamos a incluir sujeitos sedentários que iniciaram a prática de corrida há pouco tempo (lembremos as particularidades biomecânicas mencionadas no início deste artigo) e sem despistar o papel de outros fatores de risco! E muito provavelmente também haverá praticantes cuja corrida é mero complemento a outras atividades físicas (esta variável não foi tida em conta) que possam contribuir positivamente para a prevenção ou mesmo controlo da OA como, por exemplo, treino de força. Assim, estes “recreativos” são na verdade um grupo heterogéneo de praticantes de corrida com diferentes doses e respetivas respostas no que toca à performance e provavelmente para a incidência de OA.


O problema da dose!


Este parece ser o ponto crítico, pois múltiplos fatores afetam aquilo que designamos de dose e sem uma definição consistente não teremos conclusões que possam delimitar os benefícios dos malefícios. Infelizmente caro leitor, não caberia num artigo de blog tentar desenvolver e esclarecer este aspeto. Contudo, creio ser interessante referir um estudo levado a cabo por Franciozi et al (2013), numa intervenção realizada em modelos animais (8), e que visou a imposição de uma dose extrema. Pese embora as diferenças biomecânicas entre humanos e ratos, a cartilagem hialina partilha de características semelhantes entre mamíferos como fica subentendido quando as pesquisas histológicas a este biomaterial são referidas frequentemente com sentido lato, agrupando os humanos e os animais em mamíferos (9, 10). Assim, sujeitaram-se os ratos a um regime de treino de endurance progressivo durante 12 semanas com testes de performance intermédios por forma a ajustar as cargas aplicadas. No final desse período de treino, cada rato foi submetido a uma prova de endurance a uma intensidade de 60% da sua capacidade máxima individual até à exaustão. Após a aplicação do protocolo, verificou-se e comparou-se as cartilagens articulares dos côndilos femorais dos ratos do grupo de treino e do grupo de controlo. Apesar de não terem existido alterações na espessura da cartilagem, observaram-se aglomerados de condrócitos (células responsáveis pela manutenção do tecido) nas zonas articulares de maior carga mecânica o que, segundo os autores, pode estar relacionado com a resposta ao stress focalizado imposto. Além disso, verificou-se uma resposta pronunciada de mediadores pró-inflamatórios (IL-1alpha e TNF-alpha) e de proteínas caspases no grupo sujeito ao treino o que indica inflamação articular e morte celular anormais, respetivamente. Também neste grupo, o conteúdo de glicosaminoglicanos e ácido hialurónico diminuiu nas zonas de maior carga. Dado que estas moléculas têm características hidrofílicas, ou seja, de retenção da água na matriz extracelular da cartilagem, podemos assumir que a tolerância à fricção e à compressão entre superfícies articulares ficam comprometidas. Todas estas alterações são próprias dos estágios iniciais da patologia e para nosso espanto podem não ser acompanhadas de dor! Qual o potencial lesivo decorrente destas alterações juntando a isso a prática de corrida continuada, exaustiva e de longa duração? Que papel terá a fraqueza muscular em diversos cenários: 1) a exaustão muscular continuada provocada por um processo de treino (eventualmente mal conduzido) poderá estar na origem da acentuação dos sintomas por via da redução da capacidade de absorção das forças reativas do solo?; 2) a fraqueza muscular, isto é, níveis baixos de força prévios à prática de corrida poderão colocar em maior risco os praticantes recreativos ex-sedentários? 3) em recreativos competitivos é provável que o acesso e qualidade dos tratamentos clínicos no aparecimento dos sintomas de dor articular não sejam os mesmos das elites/profissionais, portanto, que efeitos a médio/longo prazo decorrem da fraqueza muscular severa e persistente em consequência dos danos articulares continuados? Estas são apenas algumas perguntas que me ocorrem por mero raciocínio inferencial uma vez que os dados empíricos são ainda escassos e alguns contraditórios.


Breves recomendações


Apesar das dificuldades para se extraírem conclusões, pelo menos algumas recomendações podem ajudar-nos no sentido de, minimamente, estratificar os praticantes que nos chegam e melhor quantificar a magnitude individual de exposição à corrida, ou seja, a dose a que são submetidos. Em suma, um conjunto de dados acerca da pessoa que visam minimizar riscos na incidência de OA e, porque não, até mesmo na prevenção de lesões de cariz traumático devido aos impactos. Gessel et al (2019), sugere que se identifiquem nos praticantes alguns fatores de risco (modificáveis e não-modificáveis) como:

  • Obesidade ou mesmo IMC acima de 25 kg/m2;

  • Historial individual de lesões: com particular destaque para o ligamento cruzado anterior ou fraturas de menisco, pois estão fortemente associadas a uma maior incidência de OA;

  • Ocupação laboral e respetiva carga mecânica;

  • Fatores biomecânicos como joelho varo;

  • Prática de outros desportos. Embora sem grandes dados empíricos, os autores remetem-nos para a averiguação de lesões anteriores relacionadas com essas modalidades;

  • Género: sexo feminino aparece com maior prevalência de OA principalmente na pós-menopausa. Porém, neste ponto devemos considerar o papel da fraqueza muscular, tipicamente mais acentuada em senhoras do que nos homens (3);

  • Idade: quanto mais avançada, maior o risco. Uma vez mais, serão de considerar aspetos relacionados com a fraqueza muscular severa decorrente, por exemplo, da sarcopenia (3).

No que se refere a uma definição mais consistente e apropriada da dose aplicada, tem sido sugerido que se controlem variáveis como: tempo e distância semanal e mensal, ritmo médio/km, frequência cardíaca média, equivalente metabólico. Contudo, poucas vezes é sugerido aos praticantes que reportem de forma sistematizada a sua perceção de esforço (PSE) e desconforto (PSD) e muito menos é incentivado o seu uso como parâmetro para controlo de intensidade da sessão. Por exemplo: um praticante, numa mesma frequência cardíaca, terá perceção de esforço e desconforto distintas no dia que sucede um treino intervalado intenso ou num dia que sucede o descanso.


Dadas as características de uma prática como a corrida, a condição muscular prévia dos praticantes não deve ser descurada. A recolha de informações um pouco mais além do que as habituais, mas não menos importantes, avaliações da condição cardio-respiratória, despiste de anomalias cardíacas em esforço e anamneses gerais de saúde. Do ponto de vista neuro-músculo-articular, importa perceber à priori que debilidades poderão existir quando se impõe uma resistência. Recordo que no caso específico da corrida estamos a falar de magnitudes na ordem das 2 a 3 vezes o peso corporal, o que para além de levantar preocupações com os níveis de força basal desses praticantes, também as amplitudes de movimento (ADM) ativas/funcionais de determinadas articulações devem ser consideradas. Por exemplo, que ADM ativa possui o praticante nos movimentos de flexão dorsal e/ou pronação do pé, sabendo que o piso de corrida tem normalmente variações de gradiente (subidas) e há forte probabilidade de se violar essas mesmas amplitudes colocando tensão anormal nos tecidos passivos? Ou que ADM ativa possui no movimento de flexão da coxo-femoral, sabendo que alguns exercícios da apelidada técnica de corrida (skipings altos) ou também as variações do piso implicam um arco de movimento maior? Perante estes factos, apesar da pouca literatura, é plausível admitirmos que o treino de força também aqui desempenha um papel protetivo ou de manutenção de sintomas da OA. Será por isso desejável a estimulação apropriada da musculatura em torno das articulações dos membros inferiores como flexores, extensores e abdutores da coxo-femoral, extensores do joelho, flexores e extensores do tornozelo e, raramente mencionados ou discutidos, os estabilizadores do arco plantar longitudinal do pé.


Conclusão


A monitorização de algumas variáveis metabólicas e cardio-respiratórias por intermédio do acesso a melhores avaliações destes parâmetros, assim como os equipamentos tecnológicos, têm permitido um controlo razoável e cada vez mais apurado do processo de treino. Porém, no que se refere às variáveis mecânicas e ao stress músculo-articular consequente dos estímulos de treino, já não temos tanto controlo. Qual a dose/resposta apropriada a cada indivíduo que se situe entre a sua disponibilidade e a sua tolerância, isto é, que provoque a perturbação apropriada na homeostasia (por forma a conseguir as adaptações desejadas e possíveis) sem provocar dolo? A meu ver este tema merece um debate mais aprofundado do que até aqui tem sido feito, pelo facto de estarmos perante uma atividade com características biomecânicas muito próprias, mas que demonstrou ser capaz de “tirar as pessoas do sofá”! E este é o desfecho que queremos: menos sedentarismo! Creio que desencorajar a prática de uma modalidade que parece ter uma forte adesão não é solução. Isso será contraditório uma vez que passamos todo o tempo a clamar junto da população por mais atividade física. Porém, é imperativo cuidar da retenção desses praticantes e conduzi-los para uma prática mais segura e duradoura. Temos de melhorar a oferta destes serviços, mas para isso o debate não se pode resumir a “VO2máximo”!


Tendo a consciência que será difícil levar a cabo estudos com o desenho ideal para apurar a associação positiva ou negativa da prática de corrida em si e a OA (algo também referido pelos autores), isto não significa que estejamos num caminho aberto ao “vale tudo” e à arbitrariedade, ou que se desista da literatura existente. Aquilo que dispomos de momento (maior número de estudos observacionais retrospetivos em vez de prospetivos) pode muito bem destapar um campo de hipóteses que muitas vezes ocorrem na nossa realidade prática: uma variedade de pessoas que vêm ao nosso encontro e que são afinal a grande massa humana dos eventos de corrida. Porém, o que me leva a escrever sobre este tema, e perdoem-me o tom moral, é sobretudo todo este incentivo e banalização das longas e ultra-distâncias da parte de organizações e alguns treinadores, todo este desrespeito por um processo de treino que isso implica, mas nem todos (ou quase nenhuns!) estarão aptos para levar a cabo. É que a realidade também é esta: a crença motivadora do “Tu queres, tu podes!” não irá desaparecer no mundo da corrida. Mas numa atividade tão complexa como esta, as probabilidades de meter a mão num pote de uma lotaria e as coisas correrem mal, são bem inferiores quando o treinador procura melhorar sistematicamente as suas competências e avalia mais além da função cardio-respiratória, isto é, uma avaliação que finalmente contemple a função neuro-músculo-articular.


© Paulino Moreira, 2021

Direitos de autor reservados




Bibliografia

  1. The state of running 2019

  2. Hespanhol Junior LC, Pillay JD, van Mechelen W, Verhagen E. (2015). Meta-analyses of the effects of habitual running on indices of health in physically inactive adults. Sports Med.

  3. Moscão, J.(2018). Mi 0,001 (REP Exercise Institute); ou https://www.repinstitute.com/post/osteoartrose-e-exercicio;

  4. https://www.lpcdr.org.pt/info-doente/patologias/osteoartrose, Liga portuguesa contra as doenças reumáticas

  5. Felson, D. (2013). Osteoarthritis as a disease of mechanics. Osteoarthritis Cartilage. Author MAnuscript. Jan 2013. NIH

  6. Timmins KA, Leech RD, Batt ME, Edwards KL. (2016). Running and Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis.

  7. Alentorn-Geli E, Samuelsson K, Musahl V, Green CL, Bhandari M, Karlsson J. (2017). The Association of Recreational and Competitive Running With Hip and Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis.

  8. C E S Franciozi 1, V A F Tarini, R D Reginato, P R S Gonçalves, V P Medeiros, M Ferretti, J L Dreyfuss, H B Nader, F Faloppa. (2013). Gradual strenuous running regimen predisposes to osteoarthritis due to cartilage cell death and levels of glycosaminoglycans.

  9. Camarero-Espinosa, S., Rothen-Rutishauser, B., Foster, E., Weder, C. (2016). Articular cartilage: from formation to tissue engineering. Biomater.

  10. Sci. 2016, 4.

  11. Correa, D., Lietman, S. (2016). Articular cartilage repair: current needs, methods and research directions. Seminars in Cell & Development Biology 62 (2017). Elsevier.

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