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O PROFISSIONAL DO EXERCÍCIO e a PATOLOGIA

O impacto do exercício físico na patologia


Os benefícios do exercício para a promoção da saúde são hoje uma área de estudo com boa sustentação científica. Uma das áreas que mais preocupa a comunidade médica são as doenças cardiovasculares e metabólicas que possam estar origem de acidentes cardiovasculares. Neste sentido, o “poder” do exercício está cada vez mais fundamentado com ciência credível.

Numa meta-análise de Março de 2018[1], uma revisão de 34 estudos, com uma amostra de 1.331.468 pessoas, foi provado que quanto menos tempo semanal de exercício físico maior a probabilidade de mortalidade por doença cardiovascular, diabete tipo 2 e cancro. Estes investigadores verificaram que as pessoas que passavam mais de 6-8h por dia sentadas apresentavam um risco exponencial. Porém coloca-se a questão: fazer exercício físico de forma arbitrária, com os “10 melhores exercícios para o verão” ou aconselhar a “ir andar a pé, ou correr, ou fazer “cardio”, é suficiente, plausível e adequado a toda a gente?


Outra questão diz respeito à tipologia de exercício mais adequada para a prevenção de doenças. Treino vigoroso e de curta duração? Treino de moderado e de longa duração? A 7 de Maio[2] de 2019, foi publicado na revista “Plos One” um artigo onde os investigadores submeteram 22 atletas de triatlo a 1h de corrida contínua e intensidade moderada. No final, verificaram um aumento significativo de marcadores infamatórios (Cortisol e ACTH), que provocaram um aumento da pressão e ritmo cardíaco bem como os níveis de stress celular. Ou seja, o exercício físico de intensidade moderada e longa parecem aumentar a atividade neural simpática, e por isso uma sobrecarga ao sistema cardiovascular. Outro foco de cuidados de saúde pública, e que parece ser crescente, é a depressão. Hoje sabe-se que o exercício previne a vulnerabilidade ao stress e ansiedade [3], e que pessoas que praticam exercício físico regularmente desenvolvem capacidades psicossociais e sentem-se apoiadas pelos pares. A explicação poderá estar na relação do exercício com a produção de substâncias (dopamina e serotonina) que nos dão a sensação de recompensa, bem-estar e prazer. Não menos importante, e talvez até mais relevante nos dias que correm, é a influência positiva do exercício físico na prevenção e/ou durante o Cancro. Assim quero aqui esclarecer algumas das dúvidas que mais frequentemente me colocam:


O exercício físico dificulta a respiração?


Não, mas pelo contrário ajuda. Num artigo de revisão[4], com 1270 pacientes com cancro no pulmão a necessitar de cirurgia, os investigadores verificaram que após a aplicação de um protocolo de exercícios de força para os músculos com funções respiratórias, os pacientes sofriam menos complicações pós-operatórias e diminuíram o tempo de internamento.


O exercício Físico piora ou desenvolve o linfedema?


A remoção de gânglios linfáticos é uma prática frequente em tratamentos ao cancro da mama. Nesta situação, com menor capacidade de circulação da linfa, a paciente pode experienciar um inchaço do braço intervencionado. Sendo que o sistema linfático não possui um coração para bombear e circular o fluido, a contração dos músculos no exercício pode ajudar neste processo[5]. Indivíduos com linfedema podem fazer exercício físico com segurança. Porém, a intensidade e volume de treino deverão ser considerados nesta equação.


O exercício físico é prejudicial e provoca mais fadiga?


O exercício físico melhora as funções fisiológicas a vários níveis: fadiga, dores, dispneia e insónia [6]. São claras as suas vantagens a nível metabólico e na produção de miocinas - substâncias produzidas durante e após a contração muscular - que fortalecem o nosso sistema imunitário. Estas miocinas têm um comportamento semelhante às hormonas. Uma vez produzidas pelo músculo, entram na corrente sanguínea, e interagem com diferentes recetores celulares em todo o organismo. Inflamatórias ou anti-inflamatórias, perecem mediar inúmeros processos bioquímicos, daí a grande influência positiva do exercício em imensas patologias.

A combinação do treino aeróbio (andar, correr, etc.) com o treino de força (resistências externas) é considerada atualmente a abordagem mais adequada na promoção dos efeitos benéficos do exercício para a saúde, nomeadamente no contexto do exercício clínico. Para tal, é importante uma comunicação constante entre as diferentes especialidades, em prol de um diagnóstico e protocolo de intervenção mais eficaz.


E o que dizer da intensidade de Exercício?


Ora, segundo Stamatakis et al. (2023)7, exercícios vigorosos de cerca de 1-2 minutos, repetidos 4-5 vezes (ou mais) ao longo do dia, apresenta resultados positivos na prevenção de cancro (17-18%), sobretudo nos cancros relacionados com o exercício como o cancro da mama (31-32%). Este tipo de exercícios pode ser contemplado por algumas tarefas diárias como subir escadas numa velocidade ou amplitude desafiadora, transportar objetos mais pesados, entre outras. Ou seja, a evidência científica cada vez mais aponta para a importância de fazer exercício físico como um bom hábito de vida. Não só previne várias patologias, como ajuda no próprio tratamento das mesmas. Naturalmente, da mesma forma que não nos devemos automedicar, ou não vamos ensinar ao explicador de matemática como fazer o seu trabalho de explicação aos nossos filhos, também a prática de exercício requer uma boa orientação. Cabe aos Personal Trainers avaliar corretamente cada pessoa que treina, e, com base nas limitações e oportunidades identificadas, decidir o processo de treino adequado na direção dos objetivos definidos.


© Afonso Franco, 2023

Direitos de autor reservados

[1] Patterson, Richard, et al. “Sedentary Behaviour and Risk of All-Cause, Cardiovascular and Cancer Mortality, and Incident Type 2 Diabetes: a Systematic Review and Dose Response Meta-Analysis.” European Journal of Epidemiology, 12 Mar. 2018. [2] Dalla Vecchia LA, Barbic F, De Maria B, Cozzolino D, Gatti R, Dipaola F, et al. (2019) Can strenuous exercise harm the heart? Insights from a study of cardiovascular neural regulation in amateur triathletes. PLoS ONE 14(5): e0216567. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0216567 [3] Xu, Furong, et al. “ Relations Of Physical Activity and Stress Vulnerability in Students.” College Student Journal, pp. 65–76. [4] Wang , Yaqing, et al. “Impact of Breathing Exercises in Subjects with Lung Cancer Undergoing Surgical Resection: A Systematic Review and Meta-Analysis.” [5] Singh, Ben, et al. “Systematic Review and Meta-Analysis of the Effects of Exercise for Those With Cancer-Related Lymphedema.” Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, 2016. [6] Nakano, Jiro, et al. “Effects of Aerobic and Resistance Exercises on Physical Symptoms in Cancer Patients: A Meta-Analysis.” Integrative Cancer Therapies, Oct. 2018. [7]Stamatakis, Emmanuel, et al. “Vigorous Intermittent Lifestyle Physical Activity and Cancer Incidence Among Nonexercising Adults.” JAMA Oncology, vol. 9, no. 9, American Medical Association (AMA), Sept. 2023, p. 1255. Crossref, https://doi.org/10.1001/jamaoncol.2023.1830.

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