FUNCIONAL É INTEGRADO E LIVRE?

Sobre dois dos princípios tradicionais deste método ...


O Treino Funcional é um método de treino com muitas "caras" e muitas abordagens. Isto quer dizer que, ao longo dos anos, e desde a sua mais pronunciada proliferação (com o Funcional Training de Juan Carlos Santana, 2000/2016), tem sido representativo de muitas marcas e tem assumido várias formas metodológicas - técnicas propriamente ditas. Não obstante, alguns princípios fundamentais mantêm-se como tradição e têm estado sempre em destaque nas demais marcas e métodos que do Funcional Training derivaram ao longo destes 22 anos.


O QUE É FUNCIONAL?


Antes de avançar, é importante entender o que se quer dizer realmente quando se afirma que um dado exercício "É FUNCIONAL". Aqui é comum ver descrito na definição de Treino Funcional a associação, de uma forma ou de outra, com a "tarefa alvo" ou a tarefa a "que o praticante está destinado", bem como a associação com os "elementos físicos do quotidiano" do praticante. Em suma, o Treino Funcional é sempre visto como um método que visa obter um transfer positivo para a motricidade a que a pessoa se destina, isto é, a obtenção de uma melhoria para a sua vida além do contexto de treino.


Neste sentido, são de referir 2 princípios tradicionalmente defendidos nestes métodos, e que visam, como princípios que são, a criação de critérios de determinação do que é considerado um "exercício funcional": Integração e Liberdade.


Integração: aqui defende-se que os exercícios menos integrados - ignorantemente designados de "isolados", uma vez que não é sequer possível no corpo humano isolar inteiramente articulações ou músculos - não são funcionais. A título de exemplo, um Leg Extension não seria considerado funcional comparativamente a um Agachamento.


Liberdade: aqui defende-se que exercícios executados com restrição - por exemplo em máquinas guiadas - não serão funcionais, debaixo da premissa de que o movimento humano, no seu contexto habitual, é levado a cabo sem restrição, isto é, com liberdade de movimento. Como exemplo, é habitualmente dito que uma máquina Leg Press não seria tão funcional quanto um Agachamento.


Entretanto, se rebuscarmos a definição de Treino Funcional, entendendo e aceitando que relaciona o método de treino com uma adaptação positivamente aproveitada pelo corpo do praticante no seu dia-a-dia - isto é, uma melhoria da função - não seriam de esperar dois princípios tão fechados assim.


INTEGRADO É MAIS FUNCIONAL?


No caso da Integração poderíamos contra-argumentar, por exemplo no caso do Leg Extension, dizendo que as melhorias anatómicas e fisiológicas alcançadas nos 4 músculos que integram o quadriceps não se esgotam, ali, na máquina! Ou seja, há ganhos cuja utilidade transcende a própria máquina: todas as melhorias estruturais e fisiológicas envolvidas no processo de hipertrofia e força, bem como da "comunicação" dos respetivos músculos com o sistema nervoso central, são melhorias que terão, com certeza, algum (pouco que seja!) transfer para a motricidade quotidiana do praticante.


De qualquer forma, como bem se justifica com recurso a argumentos anatómicos e fisiológicos, a presença de um vasto tecido fascial (que tudo liga) e de um vasto sistema nervoso (que tudo faz comunicar) garantem que não seja sequer possível isolar articulação ou grupo muscular algum. Isto, só por si, retira toda a validade ao princípio de Integração como ele é habitualmente descrito. Portanto, não há exercícios isolados, na pior das hipóteses, há exercícios menos integrados!


LIBERDADE É MAIS FUNCIONAL?


Quanto ao princípio da Liberdade, o contra-argumento pode ser totalmente biomecânico: aquilo em que consiste o real estímulo à adaptação que o sistema nervoso interpreta como digno de oposição, não é o material usado em si mesmo - não é a máquina, o haltere ou o peso do corpo enquanto tal - mas sim as forças que estes instrumentos proporcionam ao equilíbrio do sistema neuro-músculo-articular num dado momento, em termos de distúrbio mecânico (depois neural e químico).


Posto isto, é óbvio que não há uma vantagem clara de um Agachamento, quando comparado com um Leg Press, ou, pelo menos, não pelo simples facto do Agachamento ser um exercício com "liberdade de movimento", até porque (e agora explico porque usei as aspas) não há exercícios inteiramente livres de restrições, uma vez que até as proporções inter-segmentares (relação de comprimento entre ossos), juntamente com a mobilidade inter-articular disponível (as diferenças de mobilidade entre articulações), bem como os processos subconscientes (e praticamente incontornáveis) de manutenção do centro de gravidade sob a base de suporte, garantem que até num Agachamente poderá haver considerável restrição à execução. Assim sendo, tal como no anterior princípio, não há exercícios com absoluta liberdade de movimento, havendo, na pior das hipóteses, exercícios com menor restrição - as leis da física garantem que há SEMPRE alguma restrição!


POR FIM..


Todos os exercícios são integrados (uns mais, outros menos), invalidando o princípio de que os isolados não são funcionais, e todos os exercícios comportam um grau de restrição (uns mais, outros menos), invalidando o princípio de que os exercícios em máquinas não são funcionais. Ou, dito de forma positivista, todos os exercícios podem ser funcionais, quer tenham muita/pouca integração, quer tenham muita/pouca liberdade, tudo depende da resposta a duas grandes perguntas: PARA QUEM? COM QUE OBJETIVO?


Até breve





© João C. Moscão, 2022

Direitos de Autor Protegidos





459 visualizações

Posts recentes

Ver tudo