MAIS ESTUDO, MENOS MULETAS

Por mais desconfortável que lhe possa parecer este título, dê uma oportunidade a si mesmo para uma autorreflexão. Asseguro-o(a) de que esta intervenção é completamente desprovida de qualquer intenção arrogantemente invasiva. Trata-se sim de uma autorreflexão que faço semanalmente no sentido de me manter mais próximo daquilo que considero boas práticas profissionais e deontologicamente corretas. Ou seja, este artigo de opinião visa partilhar com a comunidade de Personal Trainers o paradigma que me parece mais adequado aos tempos que aí vêm. Assim, apresentarei a minha proposta assente em três núcleos essenciais: (1) senso comum; (2) “muletas” castradoras de pensamento; (3) estudo como ex líbris do PT pós-pandemia.

Senso Comum

Os benefícios do exercício para a promoção da saúde são hoje uma área de estudo com boa sustentação científica. Está tão bem difundido na nossa sociedade nos dias que correm que já parece senso comum afirmar os seus benefícios, de forma que qualquer influencer ou outro qualquer ser vivo falante se digna a difundi-los e nem é alvo de qualquer escrutínio.


Uma das áreas que mais preocupa a comunidade médica são as doenças cardiovasculares e metabólicas que possam estar na origem de acidentes cardiovasculares. Numa revisão com 1.331.468 pessoas[1], foi provado que quanto menos tempo semanal de exercício físico maior a probabilidade de mortalidade por doença cardiovascular, desenvolvimento de diabete tipo 2 e cancro. Num artigo[2] onde os investigadores submeteram 22 atletas de triatlo a 1h de corrida contínua e intensidade modera, verificou-se um aumento significativo de marcadores infamatórios neste grupo em comparação com quem correu 30min numa intensidade mais alta, que provocaram um aumento da pressão arterial e ritmo cardíaco, e ainda níveis de stress celular superiores. Ou seja, o exercício físico de intensidade moderada e longa duração parece sobrecarregar o sistema cardiovascular e imunitário. Ou seja, o cardio que habitualmente é recomendado a qualquer ser humano, se não tiver uma “dose” adequada poderá ser mais nefasto do que inicialmente se previa. Outro foco de cuidados de saúde pública, é a depressão. Hoje sabe-se que o exercício previne a vulnerabilidade ao stress e ansiedade [3], e que pessoas que praticam exercício físico regularmente desenvolvem capacidades psicossociais e sentem-se apoiadas pelos pares. A explicação poderá estar na relação do exercício com a produção de substâncias - dopamina e serotonina - que nos dão a sensação de recompensa, bem-estar e prazer.

Possivelmente nos dias que correm, é mais questionada a influência do exercício físico na prevenção e/ou durante o Cancro. Num artigo de revisão[4], com 1270 pacientes com cancro no pulmão a necessitar de cirurgia, os investigadores verificaram que após um protocolo de exercícios de força para os músculos com funções respiratórias, os pacientes sofriam menos complicações pós-operatórias e diminuíram o tempo de internamento. No que respeita à probabilidade de linfedema sabe-se hoje que a contração dos músculos no exercício pode ajudar neste processo[5]. Indivíduos com linfedema podem e devem fazer exercício físico com segurança, com especial atenção ao volume e intensidade local. O exercício físico melhora vários indicadores como: fadiga, dores, dispneia e insónia[6]. São claras as suas vantagens a nível metabólico e na produção de mioquinas que fortalecem o nosso sistema imunitário. Estas mioquinas têm um comportamento semelhante às hormonas pois entram na corrente sanguínea, e interagem com diferentes recetores celulares em todo o organismo.

Mas repare! Se não considerar a sustentação científica que lhe apresentei nos parágrafos anteriores, provavelmente até uma criança ou um cidadão analfabeto saberia apresentar estes mesmos benefícios ainda que numa linguagem mais superficial. Ou seja, já se torna quase senso comum, o que poderá colocar em causa a viabilidade de investimento num Treinador Pessoal devidamente credenciado e formado. A nossa profissão poderá estar em risco se não soubermos marcar a diferença! Já começa a surgir o “zum zum” de uma intervenção mais efetiva da medicina desportiva, ou a própria fisioterapia através da criação de ginásios dentro das clínicas. Mas adiante...



“Muletas” castradoras de pensamento

Como se não bastasse qualquer mentecapto ter acesso à internet e poder arrotar umas postas de pescada à vontade que os seus “X” mil seguidores alimentarão o seu ego com “likes” e reposts de stories, as próprias entidades tidas como autoridades internacionais ainda ajudam com guidelines que mais não são do que muletas castradoras de pensamento – mesmo que fundamentadas, tendem a retirar progressivamente a capacidade de pensamento se o PT não tiver cuidado e não for dado ao esforço intelectual. Ou seja, asseguram alguma segurança no processo de treino, mas incorrem no efeito nefasto de retirar a liberdade de pensamento do PT. Estas estratégias ensinam “O QUE” pensar ao invés de “COMO” pensar. É isto que somos totalmente contra da REP Exercise Institute. Um aluno que se cinge a replicar os exercícios que viu durante 16 horas num fim de semana, na verdade não aprendeu como adaptar o que viu/ouviu/experienciou ao seu contexto e poderá não tornar o seu treino verdadeiramente personalizado. Recentemente estive quase a me inscrever numa formação online de uma entidade americana especialista em exercício na oncologia. Quando analisei o programa deste curso, deparei-me com um modelo estanque de A®B para cada situação, e optei por cancelar a inscrição porque não quero ser papagaio. Quero sim aprender “COMO” fazer para conseguir dominar o método e então aplicar a cada situação. Afinal, é para isso que o aluno me paga tanto! Adoro ajudar o próximo e considero que é o ato mais nobre que devo fazer durante a vida – seja aluno, cliente ou colega de profissão. Alguns dos meus pares começam a considerar a minha opinião no que concerne ao exercício clínico, ao ponto de me contactarem para os ajudar quando têm alunos com doenças diversas. Sinto que na generalidade das vezes procuram uma muleta para evitar duas coisas: horas de estudo com a desagradável sensação de falta de conhecimento e que fizeram asneira antes de falar comigo; piorar a condição do cliente. Claro que seria mais fácil se eu lhes dissesse “QUE” exercícios devem ou não fazer. Poupar-lhes-ia tempo e energia, com a vantagem de que se corresse bem seria resultado da sua sapiência, e se corresse mal a culpa seria da fonte de informação (eu) que estaria equivocado. Ao invés disso procuro desenvolver um raciocínio e pesquisa de informações em fontes fidedignas para que possamos construir um método. Assim, poderá adaptar ao seu cliente em cada dia de treino, e futuramente a outro cliente. Estou a dar liberdade para que possa efetivamente construir e não dependa de mim cada vez que tiver algum cliente com algum “problema”, ou seja, genericamente sempre.


Repare, se obtivermos respostas e linhas de ação “fechadas” ficamos circunscritos ÀQUELA realidade. Não dominamos coisa nenhuma, ficamos novamente dependentes de nova informação e completamente castrados de capacidades de deliberação e volição. Porque acha que grande parte dos cursos online americanos requerem uma “atualização” de 2 em 2 anos quando na verdade pouco ou nada alteram no método, mas quando nos apercebemos disso já lhes pagámos 600$.