Quem quebra paradigmas no fitness?

Atualizado: 29 de Out de 2019

Não será exagerado afirmarmos que a entrada da ciência no exercício físico para a saúde se deu há pouco mais de 40 a 50 anos. A incorporação de um método de busca de conhecimento analítico e racional, em contraste com um outro somente intuitivo (pese embora que não deva ser desconsiderado), surge claramente mais tarde quando comparamos com a sua vertente do treino desportivo/competitivo. Esta, devido a imperativos relacionados com lucro imediato ou mesmo como um prolongamento da rivalidade entre grandes potências mundiais, vem talvez desde os jogos olímpicos da era moderna a adotar a ciência como alicerce na busca de conhecimento, assertividade nas diferentes metodologias de treino e em última análise numa aproximação à “verdade" no que se refere à biologia/fisiologia do exercício, ficando até por vezes a sensação de que se procura um algoritmo para a melhoria do desempenho humano!


É pois, recente a preocupação em adaptar as leis da biomecânica bem como princípios da fisiologia bem estabelecidos, numa perspetiva de exercício para a saúde. Por outro lado, no que se refere a pesquisas de terreno e estudos dirigidos muito trabalho há a fazer, muitas perguntas se encontram sem resposta. Os constrangimentos para levar a cabo ciência neste campo são reais, sejam eles de ordem ética, logística, temporal, económica e de amostras fiáveis. Depois, talvez porque os imperativos vão no sentido de uma política de saúde preventiva e com resultados estatísticos esperados num longo prazo, as expectativas e o reconhecimento da tutela teimam em resistir, tutela essa que até a si própria tem dificuldade em definir-se e encontrar o seu campo ao longo das legislaturas, ora vira Ministério, ora vira Secretaria de Estado!


Perante este breve enquadramento cronológico e, se quisermos, de uma classe profissional de TEF inspirada pelo maior ou menor empenho das suas hierarquias na mudança, não será de espantar a permanência e permeabilidade a paradigmas e modas do fitness, respetivamente. Muitos dos quais, senão mesmo a maioria, sem qualquer fundamentação científica! Alguns desses, assumindo-se no mercado como “práticas inócuas e saudáveis”, são na verdade desadequados e apresentam consequências negativas para a saúde músculo-articular dos praticantes. Constituem um paradoxo entre aquilo a que se propõem e a forma como realmente actuam no corpo humano. Será pois inevitável questionar: quem quebra esses paradigmas? Apenas as autoridades científicas, isto é, apenas aqueles que detêm competências específicas ficando a mudança circunscrita a estes? Ou também os TEF deverão ter um papel e responsabilidade ética, assim como a coragem de romper com o estabelecido, uma vez que são estes quem operacionaliza o processo de treino? Numa era em que qualquer afirmação ganha credibilidade e aceitação bastando invocar referências científicas ou supostas autoridades na matéria, que estratégias poderá estar dotado o profissional para que alcance um sentido crítico desejável? Que “ferramentas” poderá dispor a oferta formativa? Que papel deverão ter as autoridades num prolongamento do seu potencial para o quebrar de modelos estabelecidos?


Como referido acima, a necessidade de maior investigação é um facto, pois as perguntas são em maior número que as respostas - e ainda bem que assim é. Se por um lado foi apenas há algumas décadas que se trouxe ciência para o exercício físico dirigido para a saúde da população, por outro, e num curto espaço de tempo, a quantidade de informação disponível e ao alcance dos profissionais é incomparável com aquela que existia. Apesar de tudo, podemos hoje oferecer uma experiência com um maior grau de segurança e perícia, o que não significa necessariamente que o estejamos a concretizar. Contribuiu para isso o desenvolvimento da tecnologia e a criação de plataformas digitais que disponibilizam o conhecimento, apesar deste fenómeno de alargamento do acesso à informação não significar, também ele, a sua qualidade. O fluxo é enorme e contrasta com dois factores:


1) Capacidade de interpretação das respectivas leituras ou literacia científica. Com a noção da vastidão que este termo implica, apesar de tudo, a resposta não pode ser tão simplista quanto a um “é para isso que a formação académica superior serve”! Creio que já não chega. Numa escala ajustada, a literacia científica deve mesmo chegar aos TEF via CET (Cursos de Especialização Tecnológica). Na realidade, na prática da sua actuação, não será o facto de um profissional deter ou não formação académica superior que diminui o seu poder de actuação sobre os alunos/atletas. Urge dotar de competências que forneçam método e critério para o estudo com a finalidade de interpretar, enquadrar, identificar erros cometidos e perceber o alcance das várias categorias de estudos científicos publicados sobre determinada matéria; ou identificar o conjunto de falácias argumentativas mais comuns utilizadas em informação camuflada de credibilidade. Capacidade de perceber a diferença entre ciência de verdade e pseudociência. Capacidade de distinguir respostas da fisiologia humana em diferentes contextos comparativamente a conjuntos de exercícios que são meras coreografias, por exemplo. Tornar a capacidade de questionar numa atitude espontânea.


2) O tempo disponível e/ou disponibilizado pelos profissionais para “digerir” e reflectir sobre aquilo que se leu. Não bastará o profissional estar dotado de um conjunto de ferramentas que lhe permitam interpretar ciência. O ritmo de vida que levamos e a consequente falta de tempo é um contribuinte para ausência de debate de ideias e factos. Sobre este aspecto, António Damásio escreve o seguinte “a gestão do fluxo de conhecimento disponível obriga, frequentemente, a uma rápida classificação de factos como sendo bons ou maus […] isto contribui, porventura, para um aumento de opiniões polarizadas […] A exaustão provocada pelo excesso de factos recomenda uma fuga para as crenças e as opiniões predefinidas, em geral as do grupo a que o individuo pertence. Isto agrava-se pelo facto de tender-mos naturalmente a resistir à mudança de opinião” (A Estranha Ordem das Coisas, pág 292). Estas afirmações assentam como uma luva na realidade do fitness actual. A procura de informação e conhecimento numa atitude quantitativa e sem dar tempo à sua reflexão e ponderação conduz a interpretações superficiais e sem dar espaço sequer à partilha e ao diálogo e ainda por cima encorajada pela autonomia fornecida pelos dispositivos móveis. As verdadeiras mudanças que supostamente deveriam ocorrer ficam comprometidas conduzindo para novos preconceitos e verdades infundadas. Como diz o termo popular, estamos perante uma verdadeira “pescadinha de rabo na boca”! Por outro lado, a necessidade de aceitação do grupo de pares e o receio do seu julgamento pesam mais, inibindo uma actuação que saia da norma.


Os aspectos mencionados bastam para interromper todo um processo. Mas poderemos ainda admitir uma outra barreira à mudança que tem a ver com a relação treinador/cliente. A perspectiva que o treinador tem do seu aluno, isto é, uma abordagem cliente potencial económico versus cliente humano, a consequente determinação de objectivos (quem o faz) e a condução do processo de treino em função de quem afere as necessidades. Se não estiverem na mão do primeiro e corresponderem somente à perspectiva de consumidor do cliente – porque este não tem conhecimento técnico, não sabe – certamente perpetuará modos de actuação de menor perícia ou de menor particularidade se estivermos a falar de treino personalizado.


Foi na sequência do último encontro nacional da APTEF (Associação Portuguesa de Técnicos de Exercício Físico) e da minha participação como orador, em representação da REP Exercise Institute®, mas também como ouvinte atento, que à afirmação (bem sublinhada) “apenas as autoridades científicas têm legitimidade para mudar paradigmas”, surgiram naturalmente as questões acima mencionadas. De todo, não discordo com a afirmação e não seria sensato nem justo acreditar que esta traduza uma visão aguda e presunçosa de uma elite catedrática. Apenas considero que possa ser incompleta e demita, ou no mínimo desencoraje, os processos de mudança dos TEF.


© Paulino Moreira, 2019

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