Um Olhar Sobre o Fitness Nacional

Atualizado: há 6 dias

Afinal, como vai o estado do fitness em Portugal?!


Em Portugal, o fitness soma e segue, em contínuo crescimento e sustentabilidade. Esta é a mensagem partilhada na atualidade, pelos meios de comunicação e pelos órgãos de gestão dos clubes de fitness. Realmente, constatamos a rápida proliferação de ginásios e o surgimento de novas marcas, que continuam a crescer como cogumelos. Mas, MAIS significará MELHOR?


Tenho uma estranha sensação de inconformidade sobre esta realidade e, por isso, coloquei mãos à obra. Para saciar tal curiosidade, consultei um estudo sobre o fitness do nosso país e pude ler algumas questões interessantes. Por exemplo, há uma incapacidade gritante dos ginásios satisfazerem parte da sua população. Sim, grande parte!


A meu ver, o setor carece de alguma qualidade e andamos a cometer erros que poderão colocar em causa a sua credibilidade. Pois a maioria dos portugueses não quer nada com ginásios e, dos poucos que se inscreveram, metade desiste! Não sou eu quem o afirma, estas são algumas das ilações que podemos retirar do Barômetro do Fitness em Portugal de 2018. Assim, toda a reflexão que se segue é com base num dos maiores estudos realizados a nível nacional sobre o fitness, um projeto de 4 anos (2017/2020), que visa recolher informações sobre o setor, levado a cabo pela AGAP e o CEEI/UAL, e todas as referências percentuais que irei mencionar foram retiradas do supracitado estudo.


Gostaria de realçar a importância de um estudo desta magnitude, para uma melhor compreensão da nossa realidade, percebendo de onde vimos e para onde caminhamos. A amostra estudada corresponde a um total de 346 clubes, mantendo uma adesão muito aproximada à dos anos anteriores, dando grande representatividade do universo de clubes de fitness nacional. Os resultados globais deste estudo apresentam uma margem de erro baixa (4.3%) para um intervalo de confiança bastante satisfatório (95%). De toda a amostra, 185 são clubes individuais e 161 pertencem a cadeias, e esta nomenclatura é um dos principais fatores de distinção. Entretanto, a divisão é feita por segmentos, desde low cost, mid market a premium e, por fim e relativamente às suas dimensões, é também estimada pelo número de sócios que cada clube suporta.


Tem-se observado que os utilizadores de ginásios têm aumentado a concentração da sua prática nas cadeias que, por sua vez, vão crescendo cada vez mais em dimensão. Assim, 75% dos sócios encontravam-se em clubes com 2000 ou mais sócios. E, apesar de haver 53% de clubes individuais, estes apenas abraçam 22% dos sócios. Entretanto, tem-se assistido ao aumento da dimensão deste clubes individuais para 500-1999 sócios, bem como do número, passando de 34% (2016) para 48% (2018) da totalidade dos clubes em Portugal.


As cadeias chegam a um grande número de potenciais clientes, são a porta de entrada para as primeiras experiências, passam a sua imagem do fitness, mas depois deixam-nas desistir! (E é difícil de ouvir, mas os números atestarão tal afirmação). Por possuírem um marketing intenso, fortes patrocínios e apresentarem mensalidades bastante apelativas (ex. low cost), as cadeias conseguem angariar e chegar a grande parte da população, conferindo-lhes a capacidade de marcar tendências no fitness e de passar uma suposta imagem da perfeição que todos os utentes deveriam atingir. No entanto, sabemos de antemão que em espaços com capacidade para mais de 2000 sócios a qualidade e entrega de serviços de excelência poderá estar algo comprometida.


Ser excelente e barato dificilmente casam.

Às cadeias e aos clubes individuais de grandes dimensões, por comportarem avultados investimentos iniciais, são-lhes imputadas obrigatoriedades elevadas de faturação. Medida esta que, naturalmente, obrigará às respetivas gestões a aliciar os profissionais a aceitar determinadas condições. O problema, a meu ver e evitando generalizações, é que tais condições nem sempre são as melhores - dependendo, obviamente, da cadeia em causa.


Não, não é uma crítica aos profissionais do exercício, pois todos começamos do zero, todos vamos investindo em conhecimento, ganhando experiência e valorizando o nosso serviço e, porque nem todos nascem num berço de ouro. O problema é a falta de legislação para combater os abusos que recaem sobre os profissionais. Sugeria a existência de uma tabela salarial por escalões, por exemplo, como observamos noutras profissões, trazendo maior dignidade e proteção aos técnicos do exercício físico (TEF).


Sabemos que a ausência de diversidade nos clubes, de profissionais com mais e menos experiência, com diferentes especializações, bem como não haver coordenações de staff altruístas e gestores que defendam a valorização salarial, formativa e emocional, levará, mais tarde ou mais cedo, a profissionais menos motivados e empenhados. Infelizmente, este tipo de condutas são transversais a uma boa parte dos ginásios nos diferentes segmentos. Entretanto, concordaremos que este tipo de atitude, provavelmente, não combina com a excelência.


Todos os funcionários são o espelho da qualidade DO clube. são o rosto da marca, logo, parte fundamental da identidade da mesma.

Agora, sejamos justos, as grandes cadeias também dão contributos positivos ao fitness. Algumas apresentam mensalidades convidativas e acessíveis (aprox. 24€), bem abaixo da média nacional (39.96€), oferecem alguma variedade de modalidades/serviços, conseguindo sensibilizar e captar muita gente para a prática do exercício. Fatores estes, que são muito importantes para o nosso setor e para uma população com crescentes problemas de sedentarismo.


No barómetro, contabilizaram-se 430 mil sócios inscritos. No entanto, estima-se que sejam 539 mil em Portugal. Mas, tal como uma moeda, esta realidade apresenta duas faces, de um lado temos uns incríveis 340 mil novos sócios, do outro, uns incríveis 279 mil cancelamentos. Muito bem, conseguiu-se um saldo positivo de 61 mil sócios. Não é mau, mas para ser bom ainda não chega. Ora vejamos: a taxa de cancelamentos fixou-se em cerca de 65% (cadeias: 69%; individuais: 50%); e vou dizer de outra forma, porque pode ter escapado a alguém: em cada 100 sócios ativos, 65 cancelaram a sua inscrição em 2018. Estes números só são preocupantes para mim? A retenção dos sócios pode estar a ser completamente negligenciada.


Sugiro que a preocupação vá além da construção de novas infraestruturas, incidindo o mais possível na rentabilização dos que já estão abertos.

A tendência é para a dimensão e número de ginásios continuar a crescer, assim como a sua concentração nas grandes cidades (Lisboa, Porto, Setúbal, Braga, Aveiro e Leiria), uma vez que é aí que se observa um aumento para 80% de concentração de clubes - uma tendência que, na minha opinião, segue paralelamente à desertificação demográfica do interior do nosso país. Vamos parecer sardinhas comprimidas em latas gigantes!


Então, porque continuam a crescer novos ginásios, com slogans para malta jovem e superfícies gigantes?


Sabemos que, em Portugal, a população decresce em número e envelhece a passos largos. Somos dos países da união europeia com menor capacidade financeira e em que a cultura do exercício não é implementada desde tenra idade, levando a um consequente desinteresse pelos hábitos desportivos. Será este o foco dos low cost? E questiono-o sem ironia, porque aqui, uma vez mais, estas cadeias podem ser a solução para as dificuldades acima mencionadas, pois apresentam preços baixos e diversidade. Mas, porque têm dificuldade em reter os clientes?


Portugal apresenta uma das mais baixas taxas de praticantes de ginásios por toda a Europa, rondando os 5.4%. Para se ter a noção, no país vizinho dos olés, esta taxa ronda os 13%. A maioria da população portuguesa sofre de dois grandes problemas: o primeiro é que a classe baixa e média está "com a corda ao pescoço" e não vê o exercício físico como o melhor remédio para os seus problemas; o segundo, prende-se com a inscícia de toda uma nação. (Usei uma palavra cara para despertar o seu interesse, e que significa falta de saber, ignorância ou ausência de perícia.) Não há cultura do exercício no nosso país, somos mais comentadores/consumidores de reality shows e de jornais desportivos, do que praticantes, propriamente ditos.

Em 2018, 50% dos clubes investiu abaixo dos 25 mil euros. Alguns investiram zero euros e nada fizeram para melhorar no ano corrente. No entanto, mais de 80% dos clubes espera um crescimento superior a 2.5% em 2019. Aproximadamente 64% encaixaram mais de 75 mil euros/mês. São faturações brutais que pagarão alguns investimentos iniciais. Entretanto, apesar de não estarem a ser reinvestidas para melhorar as condições dos clubes já existentes, são canalizadas para a construção de novos clubes - o que pode ser um contra-senso! Com isto, vai havendo mais ginásios que sócios, será um otimismo desenfreado? Ou, subitamente, toda a população portuguesa acordará das trevas e tornar-se-á sócia de um clube?


A procura do lucro é importante, claro, mas a procura exclusiva do lucro, torna os sócios em números, os funcionários em números e não há romantismo nenhum.

É claro que ninguém investe para "aquecer" ou perder dinheiro, mas o lucro não pode sobrepor-se à ética. Esta não deve ser menosprezada, e o dever de prestar o melhor serviço aos seus clientes e as melhores condições laborais aos seus funcionários não podem ser friamente ignoradas - num sector de fitness para a saúde, não pode valer tudo!


Em jeito de conclusão, apresento dados mais otimistas:


Os clubes individuais apresentaram um aumento na sua capacidade de retenção, principalmente nos segmentos mid market (4 em cada 11 sócios) e premium (2 em cada 3 sócios). Esta elevada capacidade de retenção dos premium é justificada por haver um maior acompanhamento dos sócios. Os premium apresentam um rácio de 92 sócios por instrutor, em contrapartida aos low cost, que apresentam um rácio de 211 por instrutor.


A média nacional da frequência semanal dos utilizadores ficou-se pelos 1.9 vezes/semana. Nos individuais, a frequência semanal é de 2.8 vezes/semana, nas cadeias 1.7 vezes/semana, o que praticamente representa uma vez a menos do que os clubes individuais. Estes são geralmente mais pequenos, apresentam menor faturação, mensalidades mais elevadas e os sócios frequentam com maior regularidade semanal. Os clubes individuais possuem mais serviços, serviços mais diversificados e são frequentados por sócios com um leque de idades mais abrangente. Também contribuem positivamente para a empregabilidade do nosso setor, representando 40% de instrutores (que se pressupõe os profissionais liberais) e 33% do staff (que se pressupõe serem profissionais contratados), apesar de possuir apenas 22% do total de sócios em todos os clubes.


Culmino esta minha reflexão dizendo que, no fitness, como em qualquer outro setor, a educação é um pilar primordial para um avanço sustentado. A educação deve abranger todos, rigorosamente todos os intervenientes no setor, desde o investidor ao aluno de um ginásio. Os recursos humanos, são a chave para o sucesso de um clube. Podemos ter as melhores máquinas, os maiores ginásios, a melhor localização, os melhores preços, tecnologias, etc. Assim, o fitness cresce, mas a qualidade não cresce ao nível da quantidade! Entretanto, sem melhores recursos humanos, os níveis de adesão continuarão baixos, e os níveis de cancelamento altos.


© Francisco Loureiro, 2019 - Direitos de autor reservados.

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