Falha SIM; Insucesso NÃO!

Atualizado: 14 de mai.

Num mercado de fitness que luta pela sobrevivência no meio de uma tamanha crise de valores que a sociedade atravessa, e onde, repentinamente, aquilo que já era pouco considerado pela população como sendo um benefício para a saúde (o exercício físico) é mais prontamente descartado como sendo um luxo supérfluo, no meio disto, dizia eu, é espantoso que ainda seja pouco (ou nada) evidente uma mudança no modo operacional da entrega dos serviços de Fitness. Continua-se a apelar aos exemplos estéticos e ao alto desempenho desportivo – objetivos raramente ao alcance do comum praticante – bem como aos treinos deveras intensos. É sobre este último apelo, o de levar os exercícios até ao limite da fadiga (até à falha) – que irei falar hoje. Avançarei alertando o meu leitor para distinção que deve existir entre falha e insucesso na tarefa motora, achando eu que o insucesso não será bem-vindo, ao passo que a falha será uma ocorrência necessária, ou não, constante o objetivo em causa.


Com falha entende-se a dita “falha muscular momentânea” que, segundo a investigação científica, é definida como uma impossibilidade de continuar a executar a tarefa motora e que representa a máxima intensidade de esforço num dado momento (Steele e col., 2017). Agora, repare-se que nesta definição está implícita uma impossibilidade de execução motora, sim, mas ao nível da duração da mesma, ou seja, este ponto da série é o “fim da linha” no que toca ao tempo. Com isto, também se entende facilmente que a falha é um conceito superlativo, não admitindo, portanto, níveis relativos, não existindo falhar mais ou menos. Existe a execução da tarefa e existe a sua falha, como sendo o momento em que temporalmente ela já não pode continuar a ocorrer. Assim sendo, de todas as variáveis que podem compor a construção de um exercício com resistências, a falha é a impossibilidade de cumprir as variáveis respetivas à dose do exercício (esforço e duração).


A falha motora é a corrupção da dose do exercício.

Já o insucesso de uma tarefa, e a julgar pela conotação que a língua portuguesa lhe atribuí, é um conceito que admite níveis relativos, pois que, uma vez que diz respeito ao bom resultado que constantemente poderá ir sucedendo, então, trata-se de um adjetivo que implica relação e não é, de todo, absolutamente pontual. Com isto, quero afirmar que o insucesso de uma tarefa motora poderá ser maior ou menor e não dirá respeito às variáveis da “dose” do exercício, mas sim às da “forma”. Ou seja, o insucesso da tarefa motora acontece quando a relação entre o corpo (posições e movimento; motricidade estática e dinâmica, respetivamente) e a resistência (o instrumento e as forças que este comporta para o corpo) não é mais exequível de cumprimento, tendo em conta o que foi previamente instruído ao praticante.


O insucesso motor é a corrupção da forma do exercício.

Portanto, é possível que no momento em que a falha ocorre já possa haver insucesso desde há muitas repetições. Logo, a falha pressupõe uma constante capacidade de manter a forma do exercício, garantindo que a impossibilidade de execução incide apenas no tempo, e o sucesso pressupõe, obviamente, a garantia de que, até à falha, todas as repetições são o mais parecidas possível – contanto que será impossível uma motricidade absolutamente perfeita, mas creio que é justo dizer que é possível garantir uma considerável consistência na execução, ou o conceito de “repetições” não seria sequer válido no contexto de treino com resistências.


E porque é que foi importante eu esclarecer esta diferenciação entre conceitos? Porque, para os que assumem que a falha muscular momentânea – debaixo do mote “no pain, no gain” – é uma boa prática (algo que também seria deveras questionável, mas não cabe neste artigo), é importante que percebam que isso não implica obrigatoriamente o insucesso na tarefa. Estimular o praticante a avançar a sua execução no tempo, até não mais conseguir – algo que já comporta certamente um elevado grau de desconforto (e isto, num Fitness que depois, incoerentemente, se preocupa com as taxas de retenção...) – não tem que exigir o constante (a cada repetição) confronto com a noção de que não está a ser capaz de executar as posições e movimento contra-resistência que o seu treinador instruiu, já para nem falar quando isto, consequentemente, irá obrigar o próprio treinador a regurgitar correções verbais ou tácteis, também constantemente (a cada repetição), o que irá sinalizar inequivocamente ao praticante o quão mau executante ele está a ser. Já não bastava ele, algures no tempo, ver-se impossibilitado de continuar (a tal “falha”), e ainda tem de ser depreciado durante todo o tempo que antecede esse fatal momento.


Esperar-se-iam boas taxas de retenção decorrentes de um tipo de relação treinador-praticante que comporta constante insucesso? Eu acredito que não! Acredito que, mesmo que a falha seja necessária em certas e determinadas prescrições de treino, o insucesso nunca é bem-vindo. Acredito que boa parte das baixas taxas de retenção de clientes no mercado do Fitness devem-se a isto que acabei de explicar. Fica a reflexão...


Até breve!


© João C. Moscão, 2021 (direito de autor protegido)




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