Fitness Padronizado: a descredibilização do Personal Trainer

Atualizado: há 3 dias

Tudo quanto basta para começar a treinar, hoje em dia, é uma ligação wi-fi e um smartphone que permitam ao utilizador aceder ao Instagram do seu Fitness Influencer preferido, sacar o plano de treino feito por ele (alegadamente) e começar a treinar. Ou, no caso de já ser um utilizador de ginásio experiente, compilar o seu próprio plano de treino juntando exercícios seleccionados pelos seus Fitness Influencers preferidos, que garantem ser os melhores exercícios do mundo para aquele músculo, e começar a treinar. Irá também ler os seus artigos sobre dropsets, supersets e todos os métodos que aconselham, e rapidamente tornar-se num utilizador independente, que dispensa o contributo de instrutores e personal trainers que andam lá pelo ginásio. Porque, na realidade, eles não acrescentam nada ao que já se pode obter do (inserir fitness influencer com +500k seguidores). Parece simples assim.


Se és cliente de um ginásio, é provável que partilhes de opinião semelhante ao suprarreferido. Se és instrutor, é provável que esta história te seja familiar e que já tenhas esbarrado num cliente que diz: “não preciso de avaliação, o meu brother treina bué e deu-me os melhores exercícios para todos os músculos” – ou então, talvez tenhas tentado fazer uma correção e responderam-te: “Pela altura em que tu nasceste já eu puxava ferro com o gajo que foi campeão nacional de bodybuilding”; ou ainda, viste um cliente a utilizar uma máquina para treinar um músculo completamente diferente do suposto, tentaste explicar-lhe que não é para isso que aquela máquina serve e ele respondeu-te: “Mas o (inserir fitness influencer com +500k seguidores) partilhou este exercício ontem e disse que era o melhor exercício para o músculo Y que tu não estás a fazer”. No fundo, os profissionais são confrontados regularmente com clientes que julgam saber tanto ou mais sobre treino do que os próprios profissionais.


A era da aldeia global trouxe-nos o acesso fácil a todo o tipo de informação. Levanta-se, portanto, a questão sobre qual a real utilidade do Instrutor/Personal Trainer quando o cliente já é experiente, já tem plano de treino e já conhece (supostamente) a execução dos exercícios. Será que a utilidade de um Personal Trainer se esgota ao ajudar somente pessoas sem experiência e conhecimento de treino? Será que, para os utilizadores experientes, o Personal Trainer perde relevância? Qual é, então, a mais-valia da existência de um Personal Trainer?


De forma a poder ter uma percepção da opinião generalizada que as pessoas têm acerca do Personal Trainer, realizei uma sondagem informal no Instagram para um universo de 1465 seguidores, com um reach de 502 seguidores, tendo obtido 76 respostas válidas para o conjunto das duas perguntas seguintes:


  1. Em que aspectos consideras vantajoso treinar com um personal trainer comparativamente a treinar sozinho, mas com um plano de treino prescrito por alguém da tua confiança/admiração?

  2. Se pudesses treinar de borla com um personal trainer do ginásio onde andas, escolhias algum? Ou continuarias a treinar sozinho(a)?


A reacção à primeira pergunta resume essencialmente a mais-valia do Personal Trainer aos factores motivação (56%) e correção postural (37%). Outras mais-valias reconhecidas ao Personal Trainer foram a capacidade de aumentar o compromisso (12%) do cliente com o treino, ajudar a sair da zona de conforto e ir ao limite (9%),bem como ajudar a alcançar resultados mais rápido e com maior eficácia (9%). A maior segurança (7%) no treino, a variabilidade de exercícios (5%) e a manutenção do foco (2%) foram outros factores referidos. Apenas uma pessoa (2.9%) referiu a vantagem do treino ser customizado ao cliente, portanto, personalizado, o que nos remete para o facto da maioria das pessoas não estar informada ou não compreender as vantagens da customização do exercício. Na reação à segunda questão a maioria respondeu que sim, escolheria usufruir de um Personal Trainer do ginásio que frequenta, em detrimento de treinar somente com plano de treino. Houve, no entanto, várias (12%) respostas negativas. Atente-se ao facto de a pergunta indicar que o treino não teria qualquer custo, propositadamente para anular a barreira do preço que poderia influenciar algumas pessoas a responderem que não. Ao eliminar o factor custo é mais provável que a resposta de cada pessoa reflicta a mais-valia que reconhece ou não em treinar com um Personal Trainer. A pergunta também restringe a escolha dos participantes somente aos Personal Trainers disponíveis no ginásio que frequentam, o que significa que o descrédito atribuído aos Personal Trainers por parte de quem respondeu “não” pode não ser um descrédito à mais-valia da função de Personal Trainer, em si, mas aos profissionais daquele ginásio em específico. A interpretação das respostas negativas poderá ser então que, ou a pessoa não vê absolutamente vantagem nenhuma no treino personalizado, ou, apesar de reconhecer valia ao treino personalizado, não confia nos profissionais disponíveis no ginásio que frequenta. Podemos, então, concluir que a opinião generalizada das pessoas acerca dos Personal Trainers é que a sua mais-valia prende-se com factores motivacionais e que, apesar de considerarem vantajoso treinar com um Personal Trainer, nem todos os ginásios têm nos seus quadros profissionais Personal Trainers que acrescentem mais-valia (percebida pelo cliente), quando comparados com o treino autónomo recorrendo somente a um bom plano de treino.


“Apenas uma pessoa (2.9%) referiu a vantagem do treino ser customizado ao cliente, portanto, personalizado.”


Para consolidar esta pequena conclusão fiz mais uma sondagem na mesma rede social, desta vez com a seguinte afirmação seguida da opção “sim” ou “não”: “A grande mais-valia de treinar com Personal Trainer é o factor motivacional”. A opção “sim” obteve mais do dobro dos votos (56 votos - 72%) que o “não” (22 votos - 28%), o que é suficientemente explicativo acerca da opinião generalizada que o consumidor tem sobre o Personal Trainer. Parece então que, para a maioria das pessoas um Personal Trainer é, acima de tudo, um Coach Motivacional. Característica essa, à parte da qual não representa outra mais-valia, percebida pelo consumidor, que seja relevante.


“Para a maioria das pessoas um Personal Trainer é, acima de tudo, um Coach Motivacional”


Ora, acerca desta assunção apraz-me tecer e desenvolver sobre três considerações.


  1. Essa assunção é, em parte, verdadeira e merecida.

  2. A generalidade das pessoas não entende a necessidade de customização/personalização do exercício.

  3. A ideia generalizada que se tem do Personal Trainer é extremamente redutora para uma classe que pode ter um impacto tão grande na saúde pública e qualidade de vida das pessoas.


Um plano de treino consiste numa compilação de exercícios predeterminados, geralmente prescritos sob uma determinada lógica metodológica. A escolha desses exercícios prende-se essencialmente com a herança histórica de terem funcionado para uma maioria. Por exemplo: assumimos que, se os exercícios Arnold Press e o Full Squat funcionaram para o famoso e bem-sucedido bodybuilder profissional, Arnold Schwarzenneger, irão igualmente servir para mim e para os meus clientes, e o mesmo raciocínio se aplica às metodologias utilizadas. A escolha dos exercícios prende-se também com os equipamentos disponíveis no espaço onde o cliente pretende treinar. Se o ginásio tiver uma Leg Curl sentada, é provável que esse exercício vá constar do plano de treino dos músculos da região posterior da coxa. Mas, se, ao invés disso, tiver uma Leg Curl deitada, então o exercício de posteriores da coxa já será nessa máquina, portanto o exercício será diferente (embora seja possível que o PT ache que o exercício seja o mesmo) e o seu critério de escolha tenha sido somente a sua existência naquele espaço. A escolha entre a utilização de kettlebells, halteres, cabos, barras ou elásticos também poderá ser predeterminada pela sua disponibilidade no espaço em questão, ou pela formação em kettlebells que o instrutor fez na semana passada – nesse caso, no treino só vão constar exercícios com kettlebells. A própria inclusão de uma aula no plano de treino irá estar restrita às aulas disponíveis naquele espaço e, se o PT for instrutor de aulas de grupo, provavelmente escolherá uma aula dada por ele próprio. Reparem agora que todo o processo de elaboração do plano de treino e escolha dos exercícios é enviesado e em função de factores EXTERNOS ao indivíduo que se pretende treinar. Estamos, portanto, a subjugar o cliente aos exercícios preconcebidos que nós conhecemos, ao material que temos disponível ou às nossas preferências pessoais – quando o suposto é o contrário. Podemos falar então de um fitness padronizado, porque consiste na escolha de exercícios padrozinados para cada objectivo (e.g. Squat para glúteo; Chest Press para peito; Pull-Ups para dorsal; etc.) que configura o oposto do treino personalizado (em que o exercício é concebido em função das características do cliente).


É sob este ponto de vista que considero que a assunção de que a mais valia que o Personal Trainer representa se esgota no factor motivacional é justa e resultante de culpa própria. É justa, acaso o que o Personal Trainer fizer não for mais do que prescrever exercícios pré-concebidos, e que qualquer utilizador experiente também conhece e já executa com nível de correcção razoável.


“Todo o processo de elaboração do plano de treino e escolha dos exercícios é enviesado e em função de factores EXTERNOS ao indivíduo que se pretende treinar. Estamos, portanto, a subjugar o cliente aos exercícios preconcebidos que nós conhecemos, ao material que temos disponível ou às nossas preferências pessoais, quando o suposto é o contrário.”


O tempo em que cada pessoa que se inscrevia num ginásio, e precisava de ajuda do instrutor para aprender os basics, já passou há muito. Existe uma nova geração que quando faz a primeira inscrição no ginásio já traz um plano de treino no smartphone – um prescrito por alguém da sua preferência. As redes sociais são profícuas em exibir novos exercícios todos os dias. Se a acção de um Personal Trainer se resumir a ensinar exercícios novos que ajudem a quebrar a monotonia do treino ou a corrigir execuções dos mesmos, a rede (internet) levar-lhe-á sempre a melhor.


Entretanto, só porque uma hipotética maioria possa praticar a profissão de determinada forma ou só porque a maioria tem determinada opinião acerca da profissão, não significa que a profissão possa ser categorizada dessa forma. Apesar do conjunto de procedimentos que descrevi acima poder representar a prática vigente, não é isso que a profissão preconiza. Seria injusto para os que procuram PERSONALIZAR o treino em função do cliente, tal como o nome sugere que se faça, até porque esses são os únicos que se podem classificar como Personal Trainers, uma vez que são os únicos que personalizam o treino. Mas o que é isto da personalização ou customização do exercício e qual a sua relevância?


“Do ponto de vista neuro-músculo-articular, todas as pessoas são diferentes. Então, não existe um único exercício com uma execução padrão que seja adequado para toda a gente.”


A personalização ou customização do exercício não é um capricho, é uma necessidade. E com a evolução da ciência e fácil acesso à mesma que existe hoje em dia, os profissionais não têm desculpa para não saberem que 3 pessoas diferentes terão 6 articulações da anca diferentes. Isto significa que, para a primeira pessoa o seu desenho articular pode permitir-lhe 140º de amplitude de movimento, para a segunda pessoa 110º e para a terceira pessoa somente 90º. Se eu pegar nestas três pessoas e lhes atribuir o mesmo exercício padronizado (e.g. agachamento) com os mesmos critérios de execução padronizada, a probabilidade diz-me que ainda que o exercício possa estar correcto para uma dessas pessoas, pelo menos para as duas restantes vai estar inadequado. Imaginemos que um dos critérios de execução padronizada seja a realização do exercício numa amplitude de 140º. Ora, para o primeiro indivíduo o exercício poderá estar adequado pois essa é a amplitude de movimento que a sua articulação possui. No entanto, para os restantes indivíduos que possuem menor amplitude de movimento, porque a sua estrutura articular assim o determina, 140º está para lá da amplitude que estes têm disponível. Logo, forçar o movimento a uma maior amplitude do que aquela que a estrutura permite poderá comprometer aquela articulação, podendo provocar-lhe danos irreversíveis. Da mesma forma, se o critério predeterminado pelo padrão for a execução do exercício a 90º de amplitude, o exercício poderá estar adequado para um dos indivíduos, mas não estará a aproveitar toda a amplitude de movimento disponível que os restantes indivíduos possuem e que necessita ser treinada. A customização do exercício é (deve ser) a marca do Personal Trainer. É aquilo que melhor o distingue de um conjunto de exercícios na internet ao dispor de qualquer interessado. E a necessidade ou a mais-valia do treino customizado, logo, do Personal Trainer prende-se com a consciência de que, do ponto de vista neuro-músculo-articular, todas as pessoas são diferentes. Então, não existe um único exercício com uma execução padrão que seja adequado para toda a gente.


Posto isto, é importante perceber que o Personal Trainer não o é por trabalhar no ginásio e vestir uma camisola com essa denominação escrita nas costas. O Personal Trainer é o indivíduo que personaliza o treino em função de um determinado sistema neuro-músculo-articular. O Personal Trainer não o é por dar treinos privados a um cliente de cada vez. O Personal Trainer é o indivíduo que concebe um exercício em função das caracteristicas do cliente. O Personal Trainer não é o indivíduo que vemos no ginásio a fazer massagens aos clientes. O Personal Trainer é o indivíduo que possui um conjunto de conhecimentos sobre o corpo humano e ciência do exercício que lhe permitem, em cada treino, avaliar o estado do cliente e criar exercícios específicos e adaptados às capacidades e necessidades que aquele cliente apresenta naquele momento. Possui ainda as competências para monitorizar e corrigir, se necessário, a execução dos exercícios; detém a humildade para reconsiderar a substituição por outro exercício customizado, caso o primeiro não se revele cumpridor do que é desejado. A isto se designa PERSONALIZAR.


De facto, minimizar o Personal Trainer a coach motivacional é demasiado redutor para uma classe que estuda diariamente para integrar os diferentes saberes que importam à ciência do exercício, tais como a biomecânica, anatomia, fisiologia, neurologia ou psicologia. O impacto que este profissional pode ter na vida das pessoas ao melhorar a sua saúde pode ser imenso, baixando as probabilidades de desenvolvimento de doenças do foro neurológico, como o alzheimer ou parkinson, previnindo e atenuando doenças metabólicas, como a diabetes ou síndrome metabólica, melhorando a saúde cardíaca, prevenindo complicações articulares (provocados na sua maioria por falta de massa muscular e força), e até mantendo a independência motora durante a velhice avançada. Tudo isto deve ser tido em conta, pois representa um contributo inestimável para a saúde pública e bem-estar físico e mental da sociedade. É, contudo, necessário que se saiba fazer a distinção entre quem personaliza e quem padroniza, para que possa ser a partir dos primeiros que a profissão passe a ser caracterizada.


Assim sendo, a descridibilização do Personal Trainer pode ter que ver com a falta de utilidade que a classe demonstra para com indivíduos experientes em treino, mas a causa desta última é a opção que alguns treinadores tomam de seguir pelo caminho mais fácil: o da padronização do exercício em detrimento da personalização do exercício. Esta, por sua vez, será produto ou da sua ignorância ou da sua preguiça. A descridibilização do Personal Trainer, tal como acontece com qualquer outro produto no mercado, está intimamente ligada à promessa de fazer uma coisa que não se faz: personalizar o treino. Quando a maioria representiva da classe entregar ao cliente aquilo que de si é esperado – i.e. a personalização do exercício –, a opinião pública irá certamente passar a ver o Personal Trainer de uma forma mais condizente com o papel importante que este desempenha na sociedade e a sua mais-valia deixará de ser uma questão para passar a ser uma certeza.


© Carlos Eduardo Pinto, 2019

(Representante REP - região centro)



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