O LADO PESSOAL DO ENGANO

Atualizado: Fev 12

Os vieses mais populares no contexto do fitness e exercício ...


Imagine o seguinte cenário: a Maria é aluna do João. É extremamente dedicada, adora treinar e nunca perde uma sessão por nada. Um dia, no início do treino, a Maria reporta ao João uma forte dor na região lombar que migra até um dos pés. Mal pode andar! Qualquer gesto despoleta dores lacinantes! Não contactou nem um médico nem um fisioterapeuta. O João é extremamente responsável e conhece os limites legais da sua intervenção e além disso está consciente dos limites do seu conhecimento. A tomada de decisão é automática e rápida e não lhe exigiu qualquer esforço mental apesar da preocupação: sem qualquer dúvida a sessão de treino é cancelada. Passaram-se uns meses e afinal a Maria foi sujeita a cirurgia devido a hérnia lombar. Fez Fisioterapia e quer agora retomar os treinos personalizados. Porém, existem ainda algumas reservas e o João depara-se agora com elevado grau de incerteza quanto à intervenção mais apropriada dada a natureza complexa do caso. Decide contactar tanto o médico como o fisioterapeuta a fim de reunir o maior número de informações possível, faz revisões em casa à anatomia, neurofisiologia e biomecânica. Pesquisa acerca das evidências que relacionam exercício e dor lombar crónica (DLC). Há algum grau de incerteza e isso fá-lo refletir profundamente sobre o caso da Maria.


Entretanto, as intervenções do João revelaram-se um sucesso. Passado algum tempo a Maria progride de um treino de resistência manual isométrico até um treino de alta intensidade. Os fisioterapeutas ficam a saber e passam a recomendar este treinador aos seus pacientes. Ao fim de meia dúzia de casos aparentemente bem-sucedidos ganha tremenda confiança no seu trabalho. Já nem precisa de informação clínica adicional nem de fazer revisão e atualização à literatura especializada. Ele até esfrega as mãos cada vez que aparece um cliente pós cirurgia ou com dor lombar crónica. Chega mesmo a desenvolver um método pessoal com uma sequência de exercícios e respetivas doses de volume e intensidade que resultam “sempre” e confirmam praticamente aquilo que ele espera. Encontrou uma solução que encaixa num cliente com determinado padrão. Acredita que aquela intervenção é infalível, desvaloriza um ou outro caso que corra menos bem, mas também não têm consequências graves. Já nem perde um terço do tempo a estudar os casos, nem se desgasta como outrora.


Um dia a D. Avelina visita o João. Mais um caso de DLC. Mais um caso que à partida tudo tem para correr bem. Só que…não! Cada vez que treinaram o quadro piorou. Primeiramente ele nem questiona o seu método. Tem de haver algo lá fora que interfere com o seu método infalível. Será da cadeira? Será de aspirar a casa? Ou, espera lá, pois claro, o colchão onde dorme? Ao fim de alguns anos o João faz um balanço da sua experiência. Houve casos que correram bem, em muitos a sua intervenção foi inócua, noutros o cenário agravou-se. Quer ele aceite ou não, houve de facto algumas “D. Avelina”. O João tem duas saídas: encolhe os ombros, não tem a obrigação de ser bem sucedido com todos os casos, desiste de se aproximar de uma verdade um pouco melhor, está conformado e mantém o seu método supostamente infalível (que por sinal até vende bem) pois a responsabilidade vai no dia a dia dos alunos; ou enfrenta a dura realidade de que de facto houve mais casos mal sucedidos do que era de esperar, analisa-os um a um tanto quanto a memória não o traia e, finalmente, sem se deixar ofuscar pelas situações bem sucedidas consegue olhar para o cenário numa perspetiva em que os erros podem de facto também estar nele próprio! Por muito boas intenções que tenha, compreende finalmente que é humano e portanto é falível, que a natureza complexa da biologia humana facilmente o sujeita à ignorância acerca de informações adicionais sobre a pessoa seguinte. Compreende que as experiências bem-sucedidas eram apenas um indicativo, mas não uma garantia para as seguintes.


HEURÍSTICAS E VIESES


Os conceitos de heurística e de viés foram primeiramente introduzidos e estudados por Daniel Kahneman e Amos Tversky na década de 70. Nos livros de divulgação científica Judgment Under Uncertainty: heurístics and biases e mais recentemente Think, fast and slow, os dois cientistas fazem uma síntese do modelo de cognição humana demonstrando que os procedimentos para as tomadas de decisão são compostos por pouca ou nenhuma racionalidade. Convém aqui contextualizar estes dois conceitos antes de os definir ou descrever. Antes mais, de onde provêm? Kahneman e Tversky propuseram um modelo dual de processamento da cognição humana os quais denominaram de Sistema 1 e Sistema 2. Assim, muito resumidamente, o Sistema 1 tem como principais características ser inconsciente, não intencional, rápido, sem esforço, associativo, afetivo, rígido e, sobretudo, intuitivo. O Sistema 2 de pensamento humano é caracterizado por ser consciente, intencional, lento, racional e portanto exige esforço e lógica. Para melhor se entender como cada um dos sistemas propostos funciona, considerem-se os seguintes exemplos: para calcular uma soma de 2 + 2, a resposta surge-nos de maneira imediata, sem esforço e sem recurso a papel ou calculadora. No entanto, para efetuar o produto de 321 por 859 teremos de nos deter a pensar num processo muito mais demorado e racional. Ora, no primeiro exemplo chegamos perfeitamente ao resultado sem termos de parar a leitura deste mesmo texto. Foi um pensamento rápido e sem esforço, ou seja, um processo cognitivo que se aproxima do Sistema 1. As aprendizagens matemáticas desde o primeiro ano de escolaridade tornam a resolução automática. Já no segundo exemplo, se efetivamente quisermos obter o resultado daquela equação, teremos de colocar uma determinada intenção, iremos demorar mais tempo e empregar maior atenção. Portanto, um processamento que se aproxima claramente do Sistema 2. Repare que não empreguei o termo “aproxima" arbitrariamente. É importante referir, em jeito de breve nota, que apesar da distinção destes dois sistemas, eles não funcionam de maneira separada. Os autores, citados pelo psicólogo brasileiro Ronaldo Pilati, no seu livro Ciência e Pseudociência – porque acreditamos apenas naquilo que queremos acreditar, referem que “no nosso quotidiano, essas duas formas de pensamento não operam de forma isolada, mas sim em interação. O fato é que a forma intuitiva de pensamento tem-se mostrado preponderante em muitas situações, como quando tomamos decisões em momentos em que não temos clareza total sobre os resultados, ou seja, quando é incerta a consequência da nossa decisão”.


Voltemos agora ao cenário imaginário no início deste artigo. Facilmente percebemos que o João ao decidir cancelar o treino da Maria devido às fortes dores que esta reportava, se aproximou de um pensamento do Sistema 1. Ele era um treinador responsável, ciente dos limites da sua intervenção na dimensão legal e do conhecimento e, portanto, a decisão foi automática. No entanto, quando a Maria retomou os treinos, num contexto pós cirúrgico e pós fisioterapia, o João viu-se num processo de tomadas de decisão que já eram do seu âmbito e que envolveram estudo especializado, recolha de informações adicionais e profundas reflexões. Ou seja, inclinou-se para o Sistema 2.